Veja como um Fusca tem ajudado a transportar Papai Noel

Há 13 anos, família Montagnani leva o Bom Velhinho para passear nas noites de Natal; trenó atual tem alma de Fusca
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Gustavo Ruffo
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- Pode haver quem pense que o Espírito de Natal já não é mais aquele, que as decorações se banalizaram, que os festejos perderam o foco, que tudo virou comércio. Mas há coisas que, mesmo hoje, despertam o gosto de Natais de infância, daqueles em que se acreditava que Papai Noel existe. Como encontrar com Domingos João Montagnani Filho, 57 anos, em uma noite de Natal, conduzindo o trenó do Bom Velhinho pelas ruas de São Paulo, mais especificamente do Cambuci, bairro central da cidade.

Voltando para casa, este que escreve encontrou com “seu Domingos” por acaso. O som chegou antes aos sentidos Feliz Natal! Feliz Natal!, para, logo em seguida, surgir o “trenó” dobrando uma esquina. As renas, como em todo trenó que se preze, vão na frente, tão na frente que encobrem a visão deste motorista de táxi aposentado. “Tenho de conduzir com bastante cuidado. Não tenho retrovisores e minha visão fica encoberta. Guio com referências diferentes: quem me avisa sobre o que está acontecendo é o Papai Noel!”, disse Montagnani.

A decisão de acompanhar o trenó foi natural. Havia, evidentemente, o gosto pela boa história, pelo curioso, pelo inusitado, mas também algo de inexplicável, que é possível definir como “a magia do momento”. Afinal, não é todo dia que Papai Noel cruza o caminho de casa...

Apesar de o trenó andar bem devagar, era difícil conseguir conversar com seu Domingos. Ele havia acabado de passar pelo Largo do Cambuci e se dirigia à av. Lins de Vasconcelos, pedaço movimentado, de mão dupla, com uma faixa apenas para cada mão. Como conseguir conversar com ele e toda a trupe de mamães noéis sem atrapalhar o trânsito?

A dificuldade mostrou sua razão de ser. Andando atrás do trenó, era fácil notar o motor boxer em sua parte traseira. Ou era Fusca ou um parente próximo. “O trenó era um Fusca 1978. Eu era motorista de táxi e o usei na praça até 1990 e pouco. Depois, quando meu filho fez 18 anos, dei o Fusca a ele e o carro ficou na família”, disse o ex-motorista de praça e atual chofer do Papai Noel.

Além dos detalhes técnicos deste trenó que nenhum apreciador de carros se furtaria a descobrir, o que encantava era ver como um veículo tão simples e vagaroso fazia as pessoas na rua sorrirem, uma coisa rara numa cidade que está sempre com pressa. Não se ouvia nenhum barulho que não o das caixas de som do Fusca-trenó, que, de Fusca, conservou apenas o chassi e o motor. “No começo, eu montava a plataforma e desmontava, todo ano. Na terceira vez desisti e joguei a carroceria do Fusca fora. Virou trenó de vez”, disse Montagnani.

Além de sorrir, as pessoas fotografavam e acenavam para seu Domingos e seus passageiros, inclusive para o mais ilustre deles, que viajava sentado na parte de trás do trenó. “Houve uma vez em que uma moça, na Brigadeiro Luís Antônio, deixou o carro dela aberto, no meio da rua, e veio filmar a gente. A gente acabou parando o trenó e pedindo para ela voltar para o carro. Vai que alguém a rouba, né?”, contou, divertido, o motorista.

Os mais apressados, ao passar pelo trenó, acenavam ou buzinavam de leve, cumprimentando a caravana. Para não dizer que todo o trajeto era silêncio, havia os que aplaudiam o trenó inusitado, teoricamente puxado por renas, mas na verdade empurrado pelos cavalos-vapor de um velho motor boxer a ar.

No processo de conseguir uma entrevista com o chofer do Papai Noel, definitivamente não era possível estacionar e correr atrás do trenó. Foi preciso cortar por uma rua paralela e chegar antes ao final da avenida, a tempo de ver um pouco mais a reação “natalina” das pessoas na rua e de pegar o número de telefone dos ocupantes daquele trenó.

Havia perguntas a responder, sendo a principal delas a motivação para a criação daquele trenó, algo que seu Domingos responderia no dia seguinte. “A história começou quando a Letícia, minha primeira neta, nasceu. A gente queria levar o Papai Noel para encontrá-la e tínhamos uma carretinha, só que Papai Noel não anda de carretinha, anda de trenó. Decoramos a carretinha e a puxamos com meu Opala, na época. No ano seguinte eu desmontei o Fusca e criei uma plataforma para o trenó. Isso já faz 13 anos.”

De início, parecia que o trenó era parte de algum evento, uma festa de empresa, mas não era e não é o caso. “É um enfeite de Natal. É um negócio meu. É uma coisa que desgasta pra burro, mas dá um prazer muito especial de fazer. Só eu sei guiar esse trenó. Tem o som, tem o gerador, para as luzes... É tudo gambiarra que só eu sei fazer.”

Com isso em vista, e considerando que o Fusca não tem placa, não tem retrovisores e carregava um Papai Noel de 160 kg atrás do eixo traseiro do carro, que já tem o motor na mesma posição, será que nunca houve problemas com a fiscalização de trânsito? “Nunca, mas, se algum dia houver, eu digo ao guarda para guinchar. Quem vai ter coragem de levar o trenó do Papai Noel para o pátio do Detran?”. Boa pergunta... “Eu guio com cuidado, sou responsável”, arremata seu Domingos.

E quem banca tudo isso? Há alguma ajuda? O que este chofer de Papai Noel ganha? “Ontem eu saí com o trenó para mostrá-lo a um amigo. Quando cheguei, vi ele, o filho dele, já um marmanjo de uns 20 anos, e outro amigo nosso chorando que nem três crianças. É isso que eu ganho: ver a emoção das pessoas. Sou eu que pago por tudo. Quando alguém quer ajudar, dá um dinheirinho aqui, outro ali, que serve para colocar gasolina e rodar mais um pouquinho.”

Domingos João Montagnani Filho, 57 anos, ex-motorista de táxi, aposentado há seis anos, não criou nem dirige o Fusca-trenó por dinheiro. O que o move é o sorriso dos estranhos diante de suas renas, imóveis e iluminadas, ao longo das ruas em que moram seus amigos são as casas deles que estabelecem o itinerário. O que o anima é ver a reação dos amigos, a alegria da neta Letícia, a festa que seu filho, Marcello Bulhões Montagnani, faz como o Papai Noel oficial de seu trenó.

Para quem pensa que o Espírito de Natal já não é mais aquele, que as decorações se banalizaram, que os festejos perderam o foco, que tudo virou comércio, vale conhecer a história de seu Domingos, inclusive pessoalmente ele estará hoje, de novo, ao volante do trenó, na região do Cambuci. Com um chassi, uma idéia e um bocado de esforço, ele consegue evocar nas pessoas, mesmo nas mais céticas, a sensação de que Papai Noel existe. E que, neste Natal, ele vai andar de Fusca.

É com essa história que o WebMotors deseja a todos os seus leitores um excelente Natal, reforçando o espírito que, mesmo embotado, ainda deve ser o deste dia: o de celebração da vida e da alegria de estar com aqueles que amamos.

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