Medo de previsões frustradas gera otimismo envergonhado

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Fernando Calmon
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- A indústria automobilística vive um momento atribulado, mas a hora da verdade parece cada vez mais próxima. Um indicativo dessa situação foi o grande interesse no seminário Perspectivas 2006, organizado pela Editora Autodata, em São Paulo, SP. Havia quase 600 inscritos para ouvir, entre vários palestrantes, os presidentes das quatro maiores fábricas de veículos. A recorrente discussão sobre a valorização “excessiva” do real — apesar dos sucessivos recordes de exportação que indicam o contrário — tomou ares apaixonados. O fato, porém, é que se dá pouca atenção ao outro lado da moeda, com perdão do trocadilho.

Marcas recém-chegadas que utilizam conteúdo importado elevado estão satisfeitas por importar peças mais barato. Mesmo os fabricantes veteranos, na média, ainda têm cerca de 15% de seus custos dependentes de importação. Os balanços financeiros e as remessas de lucros e royalties também agradecem. Apesar de uma ou outra perda de contrato de exportação, o real forte obriga a perseverar em redução de custos e produtividade, em vez da natural acomodação que a moeda local desvalorizada proporciona. Vendas elevadas ao exterior ajudam na diminuição da capacidade ociosa e no aumento de escala de produção que absorvem parte dos aumentos de preços. No final de 2005, o País já estará um pouco acima da média mundial de uso das instalações. Deveria ser comemorado.

Previsões para 2006 indicam exportações no mesmo valor recorde de 2005, com caminhões e ônibus compensando a queda dos veículos leves. Fabricantes que possuem modelos atualizados garantirão suas vendas ao exterior. E o mercado interno, na opinião da coluna, continuará crescendo no mínimo 5% nos próximos três anos. Pressões de custos de matérias-primas importadas ou de preços dolarizados devem recuar. Espera-se uma diminuição do repasse aos preços de aumentos incontornáveis. O lado ruim é o fim dos descontos no imposto de importação de autopeças, previsto há três anos, mas aplicado agora sem aviso prévio, gerando mal-estar.

Para o consumidor a situação atual traz algumas esperanças. Com o real forte, a participação de equipamentos importados tende a melhorar o conteúdo dos automóveis. Pode viabilizar, ainda, a produção nacional de modelos descartados dos planos atuais ou mesmo sua importação com competitividade.

Pensando no fim da década, existem realmente incógnitas no futuro da indústria brasileira dentro do contexto mundial. A consultoria CSM acredita que sem produzir 4 milhões de veículos ritmo atual, 2,5 milhões há poucas chances de manter as rotas de investimentos. A carga de impostos teria de cair 50% ao final dos próximos cinco anos. Sejamos menos pessimistas. Concorrentes diretos ainda precisam avançar em engenharia própria, parque de fornecedores e redução de custos, mantendo a qualidade. A China, por exemplo, apresenta seus riscos e impõe pré-condições aos parceiros.

Sem ufanismo e se atendo aos indicadores econômicos, a melhor participação foi de Octávio de Barros, economista chefe do Bradesco. O título da sua palestra resume tudo: “Otimismo envergonhado marca o momento e aponta um 2006 melhor.” Medo de previsões frustradas explica a aparente contradição.

RODA VIVA

MOTORES flex continuam avançando tecnicamente. VW lançou segunda geração com taxa de compressão elevada 13:1 para o Gol de 1.000 cm³. Potência cresceu 3 cv 71 cv, álcool, mas o torque subiu mais. Impressão é de que a potência poderia ser maior. Talvez esteja reservada ao Fox, em breve. A GM decidiu assim: motor de 1 litro mais potente no Corsa, do que no Celta, um modelo menos pesado.

IMITAR, às vezes, não dá certo. No Vectra recém-lançado há uma inspeção técnica aos 1.500 km, inspirada na estratégia adotada no Corolla, neste caso por típica precaução nipônica. Só que a Toyota acaba de abandonar essa obrigação prematura de ir à concessionária, ao mesmo tempo em que adota a troca de óleo aos 10.000 km, junto com a primeira revisão.

MESMO motor flex evoluído, de 1,8 litro, que estreou no Idea e depois no Corsa, acaba de chegar ao Stilo. Médio-compacto da Fiat ainda fica algo inferiorizado em relação ao Astra de 2 litros, mas em vantagem frente a Golf e Focus. Pacote de bom isolamento acústico do Stilo ajuda a amenizar aspereza e ruído típicas dessa unidade motriz de origem GM, mas apresenta bom desempenho.

VOLTA do multiuso Berlingo ao mercado brasileiro deve-se à combinação de motor nacionalizado de 1,6 l/110 cv e do real forte frente ao peso argentino, de onde se origina. Ele se desloca com agilidade surpreendente para seu porte, mas sofre se receber cargas elevadas. Interessante os apliques azulados no interior painel e console que dão sensação de jovialidade

EXEMPLO de ineficiência do Denatran. Nos últimos dois anos mais de 150 sugestões foram geradas nas Câmaras Temáticas, criadas para subsidiar o órgão, e apenas seis, adotadas. Deve-se reconhecer a falta de estrutura, mas é evidente a má vontade em assuntos realmente relevantes.

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