Falta racionalidade

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Fernando Calmon
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- O mundo assistiu ao preço do petróleo, na virada do ano, atingir a marca cabalística dos três dígitos pela primeira vez: 100 dólares o barril. Um nível impressionante, mas há considerações a fazer. De início, existe um fenômeno de natureza cambial ligado à desvalorização do dólar. Com as devidas atualizações, equivale a cerca de 15% mais que o preço já atingido em 1980, no segundo choque do petróleo. Inclui também uma parcela especulativa, estimada em 20% por um dos mais importantes institutos de pesquisas econômicas da Alemanha, o DIW German.

Assustador, porém, é a projeção do instituto: US$ 150, em cinco anos; US$ 200, cinco anos depois. E atribuiu a principal causa aos estoques baixos ante o consumo crescente. É o que, de fato, preocupa. A maior parte do chamado ouro negro teima em se esconder em algumas regiões conflituosas do planeta, com potencial explosivo. O preço elevado, claro, pode viabilizar novas técnicas de prospecção e exploração. Nada, no entanto, assegura que a curva de demanda não continue a superar o nível de crescimento das reservas. A China está aí para isso mesmo.

Essa perspectiva dita a prudência de se procurar alternativas. As soluções são várias e em diferentes regiões do mundo, incluindo os biocombustíveis. O Brasil aparece em situação aparentemente confortável. É competitivo nos combustíveis mais limpos, embora as super-reservas de petróleo em alto mar ainda tragam dúvidas técnicas e econômicas. As incertezas continuam quanto ao temor do gás carbônico CO2, resultado da queima de combustíveis de qualquer origem e de atividades humanas, responder por mudanças no clima e aquecimento global.

Como o tema de combate à poluição é importante e elegante, os raciocínios muitas vezes são tolhidos. No final de 2007, o físico renomado e ex-reitor da Universidade de Brasília José Carlos de Azevedo defendeu-se de um ataque nada elegante de um dos representantes no Brasil do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática. O duelo escrito se deu nas páginas dos dois principais jornais paulistas.

Azevedo reafirmou que não há provas de que o CO2 gerado pelo homem altera o clima da Terra, porque outras influências das forças da natureza são muito mais poderosas e sem controle. No seu último artigo, citou o presidente da Fcaptionação Mundial de Cientistas, Antonino Zichichi, que afiançou: “O tema do aquecimento deve voltar aos laboratórios e não cabe em foros onde alarmistas buscam notoriedade.”

Na Europa o tema é bastante sensível e atinge de frente a indústria automobilística. Há proposta de taxar as emissões acima de 130 g/km de CO², de forma progressiva, entre 2012 e 2015. A briga tem forte viés político. Por seu lado, a indústria de transporte aeronáutico já assumiu posição defensiva. Vem publicando nas revistas de bordo um anúncio com uma vaca sentada no pasto. No texto, “reconhece” ser em parte responsável pelo problema e destaca: aviões representam apenas 2% das emissões totais, menos do que o gado produz no mundo.

Curioso que o transporte sobre rodas responde por 10% do CO2 global. Entretanto, são 950 milhões de veículos e 100 mil aviões. Falta racionalidade nessa discussão.

RODA VIVA

TRINTA horas a mais de produção em 2007 e o Brasil teria atingido a marca de 3 milhões de veículos. Mercado também alcançou recorde histórico: quase 2,5 milhões de unidades vendidas. E as exportações excluindo máquinas agrícolas subiram 8% em dólares. Única queda sensível foi de veículos desmontados para o exterior, o que ajudou a atender a forte demanda interna.

ANFAVEA manteve previsões excelentes para 2008: 17% de crescimento do mercado sobre base comparativa bastante alta. Opina que aumento do Imposto de Operações Financeiras sobre as prestações deve ser irrelevante. Positivo será aumento das importações — com baixo impacto sobre as filas, prevê a coluna. De qualquer forma, o brasileiro tem admitido encomendar e esperar um pouco mais. Graças ao fim do terror inflacionário.

ASPECTO importante do cenário atual é a aceleração de lançamentos. Finalmente, estamos perto da escala produtiva que viabilizará a diminuição da defasagem estilística e técnica que, hoje, ainda pesa. De certa forma traz sentimento de decepção. Este ano promete ser ainda mais recheado de novidades. E de todas as marcas. A manter o ritmo, a produção nos próximos anos ficará mais próxima dos modelos do exterior.

DISPUTA entre as marcas foi muita apertada em 2007. Entre 3,1% e 3,7% de participação classificaram-se quatro das recém-chegadas newcomers, em inglês. Na ordem crescente, Toyota e Renault praticamente empatadas, Peugeot e Honda. Peugeot-Citroën é o primeiro grupo das novatas a transpor 100 mil unidades anuais vendidas.

RAY Young, ex-presidente da GMB e promovido para a área de finanças da matriz nos EUA, em uma de suas últimas entrevistas, no final de 2007, pontuou: “Quatro anos aqui valem cerca de 20 anos em um mercado maduro qualquer do mundo. Aprende-se a ser flexível, correr riscos e tomar decisões rapidamente.” A corporação General Motors completará 100 anos em setembro de 2008.

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Fernando Calmon fernando@calmon.jor.br é jornalista especializado desde 1967, engenheiro, palestrante e consultor em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. Sua coluna Alta Roda começou em 1999. É publicada no WebMotors, na Gazeta Mercantil e também em uma rede nacional de 44 jornais, sites e revistas. É, ainda, correspondente para a América do Sul do site Just Auto Inglaterra.

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